segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


Elizabeth Bishop

Um comentário:

poetriz disse...

Eu nunca o tive.
Não há como perder o que nunca se teve...

Mas nem por isso perdi a cabeça.
Agora só ando sem coração.
Ou de coração vazio, como costumo dizer...

Que bom que se identificou com o post. (o meu). Aquele texto, é meu estado de espírito atual. Um desespero só dentro desse coração vazio...

Bjs!