terça-feira, 13 de outubro de 2026

Amor em linhas tortas: Quando o outro é o único cais

Existe um tipo de amor que não cabe na contagem dos dias, na rotina das horas ou na lógica do mundo. É o amor que acontece no avesso. Duas almas que se reconhecem e se apaixonam com a força de um temporal, mas que habitam geografias distantes e vidas já escritas com outras pessoas.

Quando a gente se fala, o mundo lá fora silencia. É um fenômeno bonito e assustador: em segundos, o peito se abre e eu consigo ser a minha versão mais nua, mais livre, mais eu. O outro vira o cais. Um porto seguro. O único alívio para os nós que o dia a dia amarra na garganta. A alegria passa a ter hora marcada e o formato de uma notificação na tela.

Mas há uma dor silenciosa em fazer de alguém o seu único oxigênio. Sem perceber, a gente transforma o encontro em um refúgio e o refúgio em dependência. Como se a vida só fizesse sentido naqueles minutos de partilha, e o resto do tempo fosse apenas uma espera morna. É o peso de amar quem não se pode tocar; a angústia de ser o segredo mais bonito de alguém, enquanto a vida real acontece em outro cenário.

Fomos o encontro perfeito no tempo errado. E enquanto o destino não decifra esse nó, seguimos assim: sendo o alívio um do outro na poesia do que poderia ser, mas sabendo, lá no fundo, que vento nenhum consegue segurar a beleza de um voo que só acontece no pensamento.

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